EGOCOSMO

31 de agosto de 2010 Comentários desativados em EGOCOSMO

Introdução
Como  consequência de uma época de intensas transformações, tornou-se perceptível na cultura urbana a tecnologia como parte integrante da vida cotidiana, a diminuição do espaço habitável, e a individualização do sujeito habitante. Portanto, convém pensar a arquitetura compatível com esses fatores de transitoriedade.
Baseado no processo de individualização, juntamente com a re-significação do espaço pelo advento das mídias e meios tecnológicos, a proposta deste trabalho é uma cápsula multifuncional que supre as necessidades primárias do homem contemporâneo de descanso, alimentação, individualização, mobilidade e conectividade. A cápsula tem a forma esférica para reforçar o conceito de mundo do eu, e principalmente para a viabilização da mobilidade e transportabilidade independente do automóvel.
Através de um objeto arquitetônico, este projeto propõe uma reflexão sobre as necessidades de abrigo do homem num mundo em acelerada transformação social, cultural e tecnológica.

 

Arquitetura Seminal
Na natureza, a semente rompe o pericarpo quando alcança um estado de maturação ideal e o meio propicia o desabrochar. A sua energia latente possibilita o crescimento, culminando num pequeno arbusto ou numa frondosa árvore.
Na arquitetura, muitos espaços tornam-se ociosos com a permanente presença de estruturas e equipamentos que tem usos esporádicos. Dessa forma, há desperdício de área e mal aproveitamento da dimensão espacial.
Entretanto, com o auxílio da engenharia mecânica e tecnologia, é possível tornar um espaço verdadeiramente multi-funcional. Através de artifícios construtivos, como estruturas telescópicas e sanfonadas, articulações, encaixes, peças retráteis, um mesmo espaço pode se comportar de diferentes modos.
Originado a partir de observação da natureza e sua possível aplicação nas questões espaciais, o conceito Arquitetura Seminal é uma potencialidade espaço-funcional que se manifesta quando presente as condições favoráveis.
Abrigo Cinético
O abrigo surgiu junto com o aparecimento do homem primevo na aurora dos tempos. Além do sentido de proteção física, o abrigo traz conforto pscicológico e guarda o sujeito em seu domínio de vida. Assim, o abrigo transcende a noção de película de proteção, de envoltório espacial, ele age como uma placenta, que além da membrana limítrofe, nutre e gera o ser.
As formas de habitar vão se altereando de acordo com as circunstâncias ambientais e culturais. Na década de 60 do século passado, surgiram vários grupos de arquitetos visionários (metabolistas, mega-estruturalistas, Archigram, entre outros) que conceberam formas nômades de habitar a cidade, compatíveis com as tranformações do mundo pós-guerra, da corrida espacial, da comunicação via satélite, da produção em massa. “O tempo é mutável e metamorfose substitui estase; consumismo, estilo de vida e transitoriedade tornam-se o programa” (David Greene, Archigram).
Embora poucos projetos desses grupos de vanguarda tenham sidos construídos, o que antes era uma profecia hipotética, hoje, suas idéias  tornam-se mais evidentes. As tecnologias de comunicação estão trazendo novos paradigmas. As fronteiras estão “deixando de ser geográfica para ser temporal” (Cabral Filho, 2001). Esse panorama sugere o habitar em trânsito, para que o sujeito seja abrigado acompanhando o dinamismo da vida contemporânea.

 

Indivíduo do Século XXI
Se na Idade Média o indivíduo era preso ao coletivo, orientado por uma ordem dogmática, o homem moderno iluminista passa a ter uma maior autonomia no exercício da vontade e da individualidade. Depois da Revolução Francesa, o indivíduo foi paulatinamente se concebendo como um sujeito destacado do corpo social. O sociólogo Georg Simmel fala de uma segunda revolução individualista, a qualitativa, que foi promovida pela subjetividade romântica do século XIX, exaltando a singularidade e exclusividade do eu. Cláudia Garcia e Luciana Coutinho descrevem o individualismo contemporãneo como “uma experiência de desenraizamento, de errância, vinculadas à perda de referências simbólicas”, que busca a identidade no semelhante pra afirmar suas diferenças. Essa auto-afirmação do eu tornou-se vital para a sobrevivência num mundo de acirrada competitividade.
Através da arquitetura é possível observar o processo de individualização dos últimos séculos. Na casa medieval não havia o menor senso de intimidade quando comparada com a casa contemporânea. Onde antes dormiam desde a família, a parentes, empregados, visitantes, “com várias pessoas numa cama, e várias cama num quarto” (Jonathan Hill), atualmente, cada habitante da casa tem o seu lugar nitidamente demarcado, e inviolável.
Com essas considerações, o futuro (que já  é presente) do indivíduo do século XXI, apresenta-se cada vez mais individualista, pois a tecnologia e o progresso estão trazendo mais autonomia e conhecimento para o indivíduo.

 

A proposta
A investigação na história sobre o abrigo primordial, resultou numa antevisão conceitual da habitação no futuro próximo. A idéia para este projeto orbitou em torno de individualidade, movimento e compactação, originando a proposta de um abrigo individual para o homem do século XXI, o EGOCOSMO.
A arché do EGOCOSMO é mobilidade, tanto no sentido espacial como situacional, adequando-se as oportunidades favoráveis. Por isso o EGOCOSMO não foi concebido como uma habitação permanente, e nem de substituição das estruturas existentes. Ele configura-se como uma possibilidade capaz de se instalar em diversos contextos – em terrenos, praças, parques, estacionamentos, galpões, nas árvores e até mesmo na água – numa relação simbiótica com o meio, pois o EGOCOSMO ocupa o mínimo de uma porção territorial e não deixa vestígios poluidores, e por outro lado, se aproveita das potencialidades e recursos desse meio.
Um dos motivos pelo qual as construções de mega-estruturas não se tornaram populares no mundo real deve-se ao fato de que as cidades teriam que ser re-modeladas em dispendiosas estruturas. E ao contrário, os projetos flexíveis que aceitam o ambiente construído como ponto de partida têm mais chance de serem bem sucedidos (Betsky, 2003). Por isso a idéia é que o EGOCOSMO tenha autonomia e dependa o mínimo possível de uma re-estruturação urbana. Assim, EGOCOSMO pode ser auto-suficiente na geração de energia por painéis solares e tem tanques que armazenam água e esgoto para uma autonomia no uso cotidiano. Contudo, é inevitável que EGOCOSMO seja reabastecido de água e despeje os resíduos e esgoto periodicamente.
Em camping de veículos recreacionais (recreational vehicle, RV), assim como há ponto de energia e água, tem também ponto de esgoto. Existem empresas que desenvolvem produtos sanitários higiênicos e sofisticados para esse fim, de forma que propor a criação desses pontos não é uma idéia absurda, mas apenas uma questão de adaptação. No surgimento do automóvel, ninguém haveria de imaginar que existiria um posto de gasolina em cada esquina, e hoje a realidade fala por si só. Mas por enquanto que não há esses pontos de distribuição e coleta sanitária, pode-se usar, por exemplo, o serviço de limpa-fossa, ou mesmo descarregar num banheiro próximo com um tanque portátil.
O contato mais próximo do indivíduo habitante com o consumo de energia e produção de resíduo e lixo possibilita uma consciência ecológica mais apurada sobre esses processos, pois devido às dimensões compactas dos reservatórios e da fonte de energia, não há espaço para desperdício, e por isso o uso torna-se obrigatoriamente inteligente.
Esta proposta oferece um conceito de espaço prático, móvel e compacto de abrigo individual. Todavia, assim como o mundo é uma natureza dialética de contrastes, de opostos que se completam, se atraindo e repelindo indeterminadamente, o EGOCOSMO também é um paradoxo de conceitos pela potencialidade de tornar-se o oposto ao que se propõe a ser. Este projeto pode ser um claustro de promoção do ser individualista, mas não é só isso. Muito pelo contrário, como diz um dos fundadores do Small House Society, Jay Shafer, “Quando o mundo todo é sua sala de estar, uma pequena casa parece suficiente”. E assim o indivíduo é impelido para fora da casca do ovo, para o diálogo com o mundo na sala de estar, até que seja hora de retornar e tornar-se recluso, rei do espaço infinito.

 

Aspectos tecnológicos
O EGOCOSMO é um abrigo esférico móvel. Essa esfera é composta por um sistema de casca tríplice, um sistema pendular de navegação e os equipamentos sementes.A esfera é formada por 3 cascas com estrutura geodésica curvada em duralumínio, trabalhando como um sistema monocoque. Tem raio de 1,30 metros, com área útil de 3,33m², e volume total de 9,20m³.O sistema pendular de navegação é baseado no robô GroundBot da empresa Rotundus (www.rotundus.se) . Funciona pela manipulação do centro de massa através de motores elétricos acionados por computadores. No sistema pendular estão os equipamentos de infra-estrutura, como tanques de água, baterias, motores, e as sementes quando em estado latente.As sementes são os equipamentos e mobiliários que configuram o espaço do EGOCOSMO: Latente, espaço ocioso; Cabine, configuração necessária para locomoção, com o uso da poltrona de comando; Pasto, espaço de alimentação configurado pela bancada de pia e fogão; Toalete, espaço para as necessidades fisiológicas e de asseio, configurados pelo assento sanitário e ducha; Alcova: o lugar de dormir, com o uso de colchão inflável. Os equipamentos podem ter usos combinados, diversificando as possibilidades das funções do EGOCOSMO.

 

Considerações
Por não se tratar de um caso convencional, o trabalho é uma pesquisa conceitual frente a um mundo de intensas transformações culturais e tecnológicas. Assim, EGOCOSMO é uma semente que apresenta uma potencialidade de uso do espaço doméstico nesse cenário. Contudo,  o mais importante deste trabalho são as reflexões sobre o mundo do eu, o EGOCOSMO, o lugar para a auto-manifestação da vida.
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